Pedro Bial fala sobre sexo
Postado em: Preliminares, Transgressões, Tudo Sobre Sexo por Mustafá Jarouche em 03-01-2007
Tudo é mistério
“Eu faço sexo quase todos os dias”, costumava proclamar uma colega de trabalho. “Quase segunda…Quase terça…Quase Quarta…”. Este chiste foi a primeira coisa que veio a minha cabeça depois de receber um telefonema internacional inusitado. A voz no telefone não soava acadêmica, mas era a autora de uma monografia que investigava a relação entre sexo e saúde.
Uma pesquisa entre “pessoas públicas” sobre o assunto.
Até agora não consegui pescar o tema central da monografia: afinal quem é saudável tem sexo melhor? Ou quem faz sexo em quantidade melhora a saúde? E o que mais me intriga: as pessoas públicas, cem ou cento e cinqüenta delas. Talvez a monografia seja sobre pessoas públicas falando sobre algo essencialmente antipúblico. Mesmo expatriado, venho acompanhando a febre nacional de gente famosa, de todas as idades e profissões, alardeando cada detalhe de sua vida sexual. Não sei se o sintoma brasileiro de falar compulsivamente sobre sexo é sinal de saúde, ou mesmo de sexo.
Desde criança, e através da adolescência, me acostumei a ouvir os relatos de proezas sexuais dos amigos. Primeiro, ficava meio constrangido com evidente caráter homossexual dessas rodas de conversa. Um bando de homens, nos picos da excitação olhando atentamente para o narrador, sem perder um lance sequer da noite interminável. E fazendo perguntas ansiosas. Depois, percebi algo opressivo neste cinema íntimo: eram histórias de retumbante sucesso. Nenhum fracasso! Mais tarde, me tranqüilizei. Hoje, não ouso afirmar se sexo faz bem � saúde, ou se a saúde faz bem ao sexo. Porém, atrevo a concluir que para muitos mentir é essencial para o equilíbrio corpo e mente.
“Tudo é milagre!”, disse o poeta tuberculoso Manuel Bandeira. Em se tratando de sexo, não: nada é milagre e tudo é mistério.
Posso entender a danada da Camille Paglia quando diz que o sexo é aquela região nebulosa, intersecção do corpo cíclico e da alma rebelde, onde esquecemos os nomes, e voltamos ao lugar de onde viemos, entre gritos de dor e banhos de sangue. Sim, sexo “quase” todos os dias, deve fazer muito bem, assim como é saudável nadar, passear, dar uma boa gargalhada.
Quanto � saúde, são muito variadas as modalidades de sexo que se pode escolher para atingir essa meta. E muitas destas modalidades são chamadas de perversões, palavra que em princípio não rima com saúde. Mas pode ser uma solução…
De forma que, por força disso, deixo aqui o meu tímido protesto contra tanta falação sobre o assunto, tão repetitivo, este tal de sexo, que nunca se repete pra quem tem imaginação. Se é que me entendem…
Para terminar, outra piada, que já deve ser velha, mas que me garantiram ser baseada numa história real. Ilustra bem o exibicionismo brasileiro: O sujeito chega finalmente no motel, com a mulher há tanto desejada e que depois de muito cortejo, finalmente estava se dobrando � suas carícias… Antes de tirar o soutien, ela pede: “Você tem que prometer que não conta para ninguém… “Pode se vestir, vamos embora…”, respondeu o brasileiro, “Se não pode contar qual é a graça?”.
É por essas, e por outras, que dizem que o brasileiro só goza quando conta…
Pedro Bial, repórter.
Extraído: LACERDA, L. (1994). 131 Posições Sexuais. São Paulo: Best Seller, todos os direitos reservados.


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